Qualquer que seja a problemática, ninguém consegue explorar um assunto sem uma ideia preconcebida (sem o sentido pejorativo da palavra). Desta forma, é impossível discutir uma ideia sem termos um objectivo, sem uma meta que se pretende atingir.
Falo-vos disto para vos falar sobre ateísmo e teísmo. Qualquer pessoa que indague sobre a existência de Deus tem, inicialmente, uma opinião previamente formada. A de um ateu é que Deus não existe, a de um crente é de que, obviamente, Ele existe.
A partir deste ponto somos todos humanos, somos todos iguais. Fechamo-nos em crenças melhor ou pior formadas e damos mais valor às opiniões que concordam connosco do que aquelas que discordam. Mesmo os ateus, que, na generalidade do que tenho visto na internet, acham-se intelectualmente superiores aos demais, fazem do seu ateísmo uma crença absoluta. É normal que as pessoas tenham convicções fortes, não há mal nenhum nisso. Estranho é que o ateísmo se revele, muitas vezes, tão fervorosamente crente na não-existência de Deus como qualquer evangélico americano do Texas. Ser-se ateu implica, per si, admitir a possibilidade da existência de Deus. É um pouco, perdoem-me a comparação, como acreditar na existência de vida extra-terrestre: temos provas da sua existência? Não. Poderemos afirmar, então, com toda a convicção, atacando ferozmente quem acredita, debitando epítetos menos civizilados, que não existe vida extra-terrestre? Não.
Então porque é que é muito mais fácil encontrar um ateu convicto do que alguém que não acredita e refuta qualquer possibilidade de existência de vida extra-terrestre? A questão é que acreditar num Deus tem consequências dramáticas na nossa vida, na maneira como a devemos conduzir.
É consensual que a bondade, caridade, solidariedade, altruísmo, amor, etc, são valores morais positivos que todos devemos seguir. Mas porque é consensual? Quem nos obriga a segui-los? Nietzsche escreveu que o homem é individualidade irredutível, que o mundo não tem ordem, estrutura, forma e inteligência, vingando, assim, a lei do mais forte. Não admira que seja, por isso, associado ao niilismo, onde impera a morte de sentido e ausência de finalidade. Sem finalidade, porquê praticar o bem ao invés de ser egoísta?
Outros autores tentam fugir a Deus como autoridade para os valores morais, como Kant e o seu imperativo categórico: “Procede em todas as tuas acções de modo que a norma do seu proceder possa tornar-se uma lei universal.” Porém, como é facilmente constatável, este imperativo pode legitimar a escravatura, bastando que, para isso, um grupo tenha domínio absoluto sobre outro. É ainda de Kant a ideia de um idealismo transcendental, sugerindo conceitos e formas a priori, inatos ao próprio Homem.
Em todo o caso, exceptuando o niilismo, o Homem sente necessidade de se justificar, sente necessidade de uma razão para proceder de certa forma (dizer-se que se deve praticar o bem porque é o bem (quem define o que é o bem?) é como dizer-se que se acredita em Deus porque sim, é um não-argumento…). É, no mínimo, devido a esta necessidade que todo o Homem deve admitir a possibilidade de Deus, seja qual for a natureza desse Deus.
Esta admissão não implica, necessariamente, que se deve concluir que Deus existe. É nesta fase que entram os nossos preconceitos: se se partir para a discussão com uma visão ateísta será mais provável que se termine essa discussão com a convicção de que não nos foi mostrado que Deus existe; se, por outro lado, se partir para a discussão com fé em Deus, certamente que se concluirá que não nos mostraram a impossibilidade da Sua existência.
Não pretendo, aqui, discutir a existência ou não de Deus.Venho apenas alertar para o facto de que existe muita desinformação, muitos estudos feitos à medida, consciente ou inconscientemente. Procurem ser sempre críticos, não se fiem em fontes secundárias (muitas vezes as fontes secundárias citam-se umas às outras num círculo fechado de conclusões). E, sobretudo, se querem ter um espírito aberto e sem dogmas, então encarem profundamente a possibilidade de que o apelo e a noção de bem são algo superiores a nós. O Homem, por si só, não se justifica, não se basta, sem cair numa consequência animal, da lei do mais forte, de um mundo sem ordem.
JDC