Últimas polémicas
Ninguém foi capaz de contrariar a minha ideia original. Não pretendo agora discutir a existência de Deus, qual a religião certa. Não tenho capacidade argumentativa para isso nem este é o espaço.
Penso que consegui transmitir a ideia de que a falta de um referencial externo e absoluto (por muito que a Declaração dos Direitos do Homem sejam externas, nunca será absoluta, como tu mesmo o afirmaste) leva a um relativismo e liberdade racional de escolher um qualquer conjunto de valores (moral), quaisquer que estes sejam. Nessa situação, impera a lei do mais forte onde a ética é, consequentemente, atropelada.
Sugiro que mudemos o tópico para a anarquia. Não vou fingir que conheço algum filósofo da anarquia. Conheço os seus traços mais gerais e isso, até hoje, tem-me chegado para concluir que ela é auto-destrutiva.
“cada indivíduo é responsável pelo seu comportamento na sociedade; baseia-se na reciprocidade.” O que acontece em caso de conflito de interesses? O que acontece quando alguém toma partido da sua posição dominante? Quem media o conflito? Quem estabelece a justiça? Os tribunais, para serem respeitados, têm de ser uma fonte de autoridade. Mesmo reduzindo ao absurdo de uma mediação por parte de um terceiro (tem de haver um terceiro que equilibre as forças, senão ganha sempre o mais forte), esse terceiro é, na ocasião em concreto, uma figura de autoridade.
Não te acuso de inocência por acreditares na responsabilidade como fonte de toda a liberdade, porque concordo contigo piamente. Devemos ser responsáveis pelos nossos actos, mas se não existir uma estrutura vertical, somos responsáveis perante quem? Perante os nossos pares? Porquê? Que legitimidade têm eles para nos censurar? O único que teria essa legitimidade seria o prejudicado na minha relação social, mas esse (caso eu fosse o mais forte) seria aniquilado (em sentido lato… ou não) por mim! Não podes presumir que, num regime anárquico, todos agiriamos de boa fé…
Mais ainda, quem legislaria? Se a anarquia não promove o caos, então precisa de existir regulamentação nas relações sociais, isto é, leis. Mas quem tem legitimidade para isso? Não podes afirmar que resultariam de um consenso unânime ou alargado. Primeiro porque o primeiro não existe. Segundo porque o segundo implica a imposição de uma regra a alguém que não a aceita e, como não há figura autoritária, essa regra não pode ser executada.
Posto isto, a minha última frase (“qualquer Declaração Universal, seja ela qual for, estabelece uma estruturação vertical da sociedade, o que é, per si, anti-anárquico…”) faz todo o sentido. A Declaração, caso seja adoptada como um referêncial de valores externo, é uma forma de regulamentação das relações sociais! Caso não seja adoptada como referencial externo não tem qualquer valor (passa a ser apenas mais um conjunto de ideias), caso seja implementada necessita de um poder executivo e judicial que a faça cumprir, senão não tem valor prático!
A filosofia anárquica só é utópica porque parte do princípio que todos agiriam de boa fé. E se acreditas niso, ou almejas como meta ideológica, então estás a ser mesmo inocente. Eu também tenho a utopia de um regime social onde a justiça seja rápida e eficiente, o apoio social completo e equilibrado, a política sincera e honesta, as pessoas civilizadas, solidárias e tolerantes. Mas não posso acreditar que, no meio de todas as flutuações sociais e acontecimentos imprevistos (como um desastre natural ou um “crash” económico), ninguém jamais actuará de má fé. Isso não é utopia, é impossível!
Por favor, conta-me como ultrapassas esta dificuldade. Pergunto-te honestamente porque não há paradigmas sociais perfeitos e a anarquia tem os seus méritos. Pode ser que me convenças do controlo da entropia gerado numa sociedade sem figura de autoridade.
JDC
P.S.: “Não vejo é em que medida é que Deus diminui a lógica da “lei da selva”. E a História fala por si.” Sim a História fala por si: onde há poder há corrupção, sejam crentes ou ateus. As atrocidades cometidas em nome de Deus não passaram de actos cometidos em busca de poder e fortuna, que em nada se coaduna com a fé cristã. Por outro lado, onde os governos e a sociedade em geral tem falhado, a Igreja tem sido a primeira a mostrar como a caridade, solideriedade e altruísmo podem fazer a diferença: quem promove associações de ajuda aos mais desfavorecidos? Quem está no terreno em África a manter escolas e hospitais a funcionar? Quem são os primeiros a aparecer nos cenários de desastre natural? Não menosprezes a acção de todos os que dão anos da sua vida em prol dos outros, a combater precisamente a lei da selva. Não digo que ateus não o façam, mas a verdade é que a verdadeira face daquilo que a Igreja é suposto ser está aí.
Antes de partirmos então para a anarquia (que se prefigura como um debate interessante) quero só rapidamente fazer as minhas declarações finais quanto ao tópico anterior. Reconheço que certos movimentos religiosos têm tido um papel louvável. Não digo que a Igreja seja o Mal absoluto. Convém no entanto não esquecer que muitas ONG laicas (como tu prórpio referes) têm estado também na linha da frente no plano de apoio aos desfavorecidos e oprimidos em cenários de crise (exemplos: Amnistia International, Médicos Sem Fronteiras ou Human Rights Watch, etc.)
Segundo ponto, a falta de “absolutidade” é um “defeito” comum quer aos Direitos Humanos, quer a Deus. Teoricamente, qualquer conceito provindo do intelecto humano é discutível. Não é por aí que se ultrapassa o suposto problema do relativismo.
E que a ética é muitas vezes atropelada por ateus e religiosos, sem dúvida. Eu nunca quis defender o contrário.
Dito isto, prometo que vou trabalhar para responder às tuas questões, com a seriedade e tempo que elas merecem. Lá terei eu de ir desenterrar a minha bibliografia anarca para apresentar tudo como deve ser…
Prometo uma resposta decente nos próximos dias.
Apenas uma acha.
“Que legitimidade têm eles para nos censurar? ” É perfeitamente natural que censures as outras pessoas com base em ti próprio. O comportamento legitima. Mas claro que não concordo muito com isso. É algo entre os fariseus do tempo de Jesus e o José Mourinho.
Peço desculpa por não ter desenvolvido ainda o tópica da anarquia. Mas os últimos desenvolvimentos dos post anterior estão-me a tomar mais tempo do que eu tenho disponível. E este fim-de-semana vai ser ocupadito, por isso nao prometo nada. Mas vou tentar.
Peço desculpa por andar a demorar, mas tenho andado aterefado e, até agora, sempre que tentei postar qualquer coisa, tem dado erro. Não sei o que se passa. Mas queria só deixar aqui meia dúzia de linhas:
Estou com pouco tempo, por isso só vou deixar um muito breve comentário:
“O que acontece em caso de conflito de interesses? O que acontece quando alguém toma partido da sua posição dominante? Quem media o conflito? Quem estabelece a justiça? Os tribunais, para serem respeitados, têm de ser uma fonte de autoridade.”
Sobre esta questão encontrei há tempos na net um breve ensaio sobre esta mesma questão. Se estiveres interessado em ler, este é o link: http://www.anarchism.net/forum/forum_entry.php?id=17229
Mas o anarquismo é bastante vasto. Esta é uma possível solução à questão que levantaste (perfeitamente legítima). Não me revejo em todas as posições aí defendidas, mas no essencial não anda muito longe de uma solução de compromisso que eu aceitaria.
não vás tu começar a pensar que eu evito comentar os ‘textos grandes’ apenas pelo seu tamanho ou por falta de paciência, quero só explicar-te que não os tenho comentado apenas porque falam de uma temática que já há mt desisti de debater - Deus, a sua existência, a sua não existência e afins. os meus pais acreditam, eu fui educada para acreditar, mas não acredito. não consigo. olho em redor e o mundo não me permite admitir a existência de um ‘referencial externo’… e só por isso é que não os comentei!