Ficção(?)
“Tinha sido uma semana nova. Tinha passado pouco tempo em casa, a vida tinha-o ocupado com um sem número de coisas, umas velhas, umas novas… Por momentos libertou-se. Por momentos, ao rodar a chave de casa, não olhou em volta. Por momentos…
Há coisas que mudam. Outras que ficam. O que havia mudado, então? O que continuava?
Tinha saído, com os amigos, beber uma cerveja, ou duas, conversado sobre nada, sobre tudo. “E agora, onde vamos?” Jogar bilhar. Há quanto tempo não jogava ele bilhar? Já se tinha esquecido. E isso notou-se… Café com velhos conhecidos, que agora lhe pareciam familiarmente estranhos. Conversas sobre tudo… Por momentos, libertou-se. Por momentos. Mas há coisas que ficam. Há coisas que mudam…
No dia a seguir, no início de algo novo, discutiu o seu futuro. Parecia que, de repente, as oportunidades de trabalho se desenrolavam á frente. Qual o caminho a seguir? O que queria ele? Achou curioso que, a mesma oportunidade pode significar tantas coisas diferentes! Por vezes, são tantas as opções que se torna difícil escolher. Por vezes, não temos opção nenhuma e é difícil continuar… Era difícil libertar-se.
Naquela manhã, saíu de casa cedo. Foi correr de manhã, quando podia estar sozinho e o ar ainda não era citadino mas talvez um pouco rural, devido ás velhas árvores que o ladeavam. Todo aquele verde e castanho transportavam-no para outro local, não importava para onde… Aí, por breves momentos, sentía-se invisível, escudado, para que ninguém visse a verdade. Uma voltas mais tarde, regressou a casa, tomou banho. Aquele ritual já se tornara automático ao ponto de lhe parecer que o seu pequeno apartamento colaborava activamente com ele, abrindo as janelas, pondo a roupa suja para lavar…
Passada meia-hora, passou pelo quiósque da esquina, comprou o jornal e sentou-se naquela esplanada que já era um pouco sua, ou ele já era um pouco da esplanada. Só enquanto esperava pelo pequeno-almoço percebeu que ainda não tinha recuperado o fôlego. Sentia os pulmões pequenos, atrofiados, como se tivessem encolhido. O dia passou, como sempre, mas aquela sensação não dava sinal de desvanecer. O que estaria diferente?
Pouco passava das sete e meia quando chegou a casa. Sentou-se no sofá, ligou a televisão. Estava um fim-de-tarde como os que só existem em pinturas… Levantou-se e foi até à varanda. Aí, libertou-se, deixou-se ser visível. Só então se apercebeu. Aquela sensação o dia todo… Há coisas que mudam. Por momentos. Outras que ficam.”
JDC