Monday, February 28, 2005

Ralatórios, força e bonança

    Já alguma vez tiveram um relatório tão estúpido, cheio de continhas e contecas, de pormenores sem ter fim e depois chegarem ao fim e não dar nada certo? Pronto, aí têm a razão de um fim-de-semana sem nenhum post… Um relatório que mais se tornou um ralatório!! :(
    Mas o que interessa é isto: no sábado estive com um antigo colega meu do secundário que esteve gravemente doente. A melhor notícia que recebi nos últimos anos (sim, anos) foi precisamente vê-lo cheio de saúde e recuperado! Não fui uma pessoa que o “acompanhasse” (á falta de melhor palavra) activamente, isto é, estando na sua companhia, etc, até porque temos vidas completamente diferentes. Porém, acompanhei-o sempre de longe, procurando saber notícias. Há muitas razões para tal mas a principal prende-se com a privacidade dele, que desde cedo me foi dado a entender para respeitar. A jeito de “dano colateral”, a sua namorada subiu muito na minha consideração: mostrou carácter e força de espírito onde seria mais fácil simplesmente desistir. Parabéns a todos. Mas parabéns a quem viveu a experiencia na primeira pessoa. Não sei quantos de nós conseguiriamos passar pelo mesmo como ele passou, com a mesma força
    Os útlimos tempos não têm sido de grandes notícias, antes pelo contrário. Cheguei a comentar com várias pessoas que parecia que andava tudo louco. Espero que agora as coisas comecem a mudar. Depois da tempestade vem a bonança? E mesmo para quem isso pareça um absurdo neste momento só digo isto: o fechar de um ciclo, bom ou mau, é sempre difícil. Desengane-se quem pensar o contrário. Mas quando essa conclusão é apenas o melhor para nós não podemos ter medo. É a vida a bater-nos à porta! Falando por mim, o que vivi eu nos meus apenas 19 anos? E o que viverei para a frente? Tenho memórias muito fortes mas não posso deixa-las prender-me a um passado que não volta mais. O futuro é de quem o agarra!

JDC

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Friday, February 25, 2005

“Everything’s not lost”

Há músicas que por alguma razão se relacionam ou ficam-nos presas no espírito, por uma ou outra razão. Esta é uma delas, pois fala de um optimismo que devemos ter quando as coisas não estão a correr muito bem…

When I counted up my demons
Saw there was one for every day
With the good ones on my shoulders
I drove the other ones away

So if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I’ll be counting up my demons, yeah
Hoping everything’s not lost

When you thought that it was over
You could feel it all around
And everybody’s out to get you
Don’t you let it drag you down

‘Cos if you ever feel neglected
And if you think that all is lost
I’ll be counting up my demons, yeah
Hoping everything’s not lost

If you ever feel neglected
If you think that all is lost
I’ll be counting up my demons, yeah
Hoping everything’s not lost

Singing out
Oh, oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Everything’s not lost

So come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything’s not lost

Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
Oh, oh, yeah
And everything’s not lost

Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah

Come on, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything’s not lost

Sing out, yeah
Oh, oh, yeah
Come on, yeah
And everything’s not lost

Come on, yeah
Oh, oh yeah
Sing out, yeah
And everything’s not lost

E vocês? Já contaram os vossos demónios?

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Wednesday, February 23, 2005

Inocência

As crianças.  São o que de mais inocente temos no mundo! Mas têm muito mais imaginação do que inocência…. Senão vejamos a seguinte composição, escrita pelo João, aluno do 6º ano, quando instigado a falar sobre um animal à sua escolha:

    “As rãs: Eu gosto muito de rãs. As rãs arrotam a noite toda. As rãs são mais pequenas que as vacas e mais grandes que um pintelho. As rãs não têm pintelhos. As rãs põem ovos pela paxaxa que depois dão rãzinhas pequenas. Se as rãs tivessem pintelhos na paxaxa arranhavam os ovinhos que são muito pequenininhos e as rãzinhas que estão lá dentro iam morrer porque entrava água pelas arranhadelas e elas morriam afogadas e porque quando são pequenas não têm patas e não sabem nadar. Eu também ainda não tenho pintelhos mas já sei nadar. Também ainda não tenho paxaxa mas um dia vou ter muitas. As rãs são as mulheres dos sapos. Os sapos não têm unhas por isso não podem coçar os tomates. É por isso que eles andam com as pernas abertas a arrastar os Tomates que é para os coçar. E quando se picam nos tomates os sapos dão saltos. As rãs também dão muitos saltos, por isso têm a paxaxa sempre aos saltos.Eu gosto muito de rãs. E gosto muito de sapos.”

Há mais alguma coisa que possa ser dita?

JDC

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Monday, February 21, 2005

Hipocrisia

Aqui vai um mail acerca da hipocrisia e a melhor resposta para ela: a inteligência. (desculpem ser muito longo…)

Durante um debate numa universidade nos Estados Unidos actual Ministro da Educação CRISTOVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência nalguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros). Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro.

Esta foi a resposta do Sr.Cristovam Buarque:

“De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro… O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por
constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa! “

JDC

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Sunday, February 20, 2005

O que é ser-se Racista?

    O que é ser-se racista? E o que é não ser-se racista?
    Acreditem ou não, um episódio do “South Park” conseguiu, na sua simplicidade mórbida e directa, pegar nos conceitos de tolerância e racismo e atirá-los ao ar. Então não é que a bandeira escolhida para a cidade representava quatro bonecos brancos a enforcarem um preto. Os seus autores alegavam a representatividade para a História recente da cidade. Assim de repente parece uma enorme desconsideração racial, representar um pedaço de História com o povo africano como vilão, mau e o povo branco como veículo de justiça, como que livres de maldade. O episódio começa a baralhar as concepções normais quando um grupo de crianças apenas vê uma pessoa a ser enforcada por quatro. Não vê cores, não vê diferenças entre uns e outros! Ou seja, de um ponto de vista perfeitamente tolerante sem quaisquer diferenciações entre brancos e pretos a bandeira não tem nada de racista!! Representa um aspecto (sombrio talvez) da História da cidade!
    E agora? Será que a cor só importa em certas alturas, como por exemplo no facto da pessoa enforcada ser preta e as outras brancas? Não será isso o verdadeiro Racismo?
    Claro e obviamente, que fique bem claro, que a escolha das cores dos bonecos não pretende ser ingénua. Porque é que apenas só são representados brancos a enforcar pretos? Obviamente que de um ponto de vista humanista e não discriminatório, sem deixar hipóteses a interpretações de que só os pretos são maus, só os brancos são bons, a bandeira teria que ter pessoas de várias etnias entre os carrascos (indíos também!, porque não?) e possivelmente mais que uma pessoa a ser enforcada. Isto para mostrar que a justiça está acima de tudo e é feita por todos e para todos, sejam brancos, pretos, vermelhos, azuis, roxos, etc…
    Com este post apenas quero mostrar que há temas muitos sensíveis, como este, e que há que encará-los da perspectiva de todos. Infelizmente ainda há muito Racismo por aí, basta olhar para o médio oriente onde e palestinianos e israelitas têm ódio de morte (literalmente) uns pelos outros, ou então para a nossa cidade, onde de certeza encontrarão.

JDC

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Votos

    Hoje foi dia de votos. A esta hora ainda não se sabe exactamente as proporções mas o PS conseguiu uma vitória histórica. A maioria absoluta, mais do que um prémio (prémio de quê pergunto eu?) é uma responsabilidade. Perante todos nós, mesmo os que não votaram nele. Voltaremos ao tempo dos boys-for-the-jobs, da hesitação e falta de coragem política? ou finalmente encontramos alguém capaz de fazer frente aos impressionantes números dos lucros da banca, mexer no pote e enfrentar as abelhas com coragem? No fim, o povo é quem lhes cobrará mais caro, porque com maioria absoluta não há desculpa possível. Nem a da herança pesada.
    Por mim acho pouco provável, esperava um governo de coligação com um partido pequeno e por isso menos sujeito a movimentações menos claras, o que daria maior margem de manobra para as medidas necessárias. Assim resta-me esperar. Boa sorte!

JDC

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Saturday, February 19, 2005

Reflexão

    Hoje é dia de reflexão. Mas reflectir sobre o que? Sobre quem anda ao colo? Sobre quem foi mau no passado? Sobre quem sabe o que é o sorriso de uma criança? Afinal de contas que assuntos nos deram os políticos para reflectir? Não sei ainda quem apresenta as melhores soluções para a rampa inclinada (para baixo, claro está) em que nos encontramos… E não o sei porque apenas retive vagas propostas acerca do assunto. Afinal de contas, esta foi uma campanha de ataque pessoal. E ataques àquilo que verdadeiramente importa? A saúde? A educação? A pobreza?
    Somos a nação do umbigo. O que importa são os zeros à esquerda da nossa conta. É cada um por si e os outros que se desenrasquem! Será que ninguém consegue ver que a única maneira de se crescer é se TODOS crescermos? De que adianta termos um luxuoso carro se as estradas são más? Termos uma casa palaciesca se o bairro é sujo, pobre, degradado? Vamos viver em ilhas urbanas? É só um exemplo…
    Somos uma sociedade livre desde o 25 de Abril mas os mesmos interesses ditam leis. O lobby e a cunha estão demasiado enraízados na nossa cultura para que uma só revolução os demova. E de quem é a culpa? Dos políticos? Mas não são eles portugueses, fruto da nossa sociedade? Porque haveriam de ser diferentes? Apenas lhes cobro o facto de terem sido os primeiros a poder mudar alguma coisa e terem fracassado… O que faremos nós quando chegar a nossa vez?
    Como podem ver, à muita reflexão a fazer. Mas não sobre a campanha nem as propostas (quais mesmo?).

JDC

P.S.: É de mim ou o Vaticano em vez de se abrir à nova realidade mundial fecha-se ainda mais nos dogmas? Aborto comparado ao Holocausto por um Papa polaco? Parece-me, tristemente, que apenas vemos um fantoche e não um líder da Igreja

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Friday, February 18, 2005

Encaixe? talvez não…

    Ontem, no Santos da praça, foi a “Festa do Encaixe”, promovida pelo NEEA (não me perguntem o que quer dizer NEEA pois o carimbo nas costas da mão esborratou e não se consegue ler nada… sei que tem a ver com o curso de Ambiente…). E o que é a “Festa do Encaixe”, perguntam-me? Eles andam com o seu parafuso alto, vistoso e em riste, á procura das porcas delas, de uma que seja do tamanho exacto para se dar o encaixe propriamente dito. Quando tal acontece(u) a festa é(foi) grande e a recompensa merecida…. Afinal de contas eram muitos parafusos para outras tantas porcas (se bem que duvido da proporcionalidade) e no meio da confusão mal se ouvia o pedido “deixa-me ver o teu parafuso” ou o chamamento “onde está a minha porca?”.
    Após tantas calorias desgastadas na procura do encaixe, o referido parafuso na porca correcta dava direito a duas cervejas!
    Curioso, ou talvez não, foi a presença de um senhor de cabelos grisalhos, concerteza com mais de 50 anos, que deu muito nas vistas por procurar incessantemente a porca condizente com o seu parafuso… Não consta que tivesse encontrado, talvez porque nenhuma porca se atreveu a candidatar-se ou então o seu parafuso seria de outro campeonato (leia-se, sem porca correspondete, claro!). No meio da confusão, quando também eu tentava o meu encaixe, pensei para mim mesmo: se com 50 anos é assim, como não seria à 20 anos atrás!!
    No final da festa, achei a festa muito metafórica: uns encontravam rapidamente o seu encaixe enquanto que outros desesperavam com a procura pois ora era grande demais ora pequena demais… De facto, pareceu-me que a maiorida das porcas era bem mais pequena que os parafusos que por lá circulavam (tirem as ilações que quiserem…). De entre aqueles parafusos e porcas sem encaixe à vista, eram muitos aqueles que passando por um “quase” encaixe tentavam uma e outra vez, na esperança de que alguns milímetros tivessem cedido ou então apenas apercebendo-se das anteriores tentativas.

    Quanto a mim, estive 1h à procura da minha porca. Incessantemente ouvia: “é muito grande!”. O que fazer quando a sorte nos deixa com um parafuso muito grande?? Aproveitava este espaço para lançar o apelo: “Urso, se me estás a ouvir, vai fazer análises porque um dos lenhadores….” (pera aí, não é isto….), “Porca, continuo à tua procura…” (desculpem o tom melodramático :P)

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Thursday, February 17, 2005

Ah e tal…

Bem a propósito da já usada (até à exaustão) imortalizada pelo senhor que parece que lhe aconteceu não sei quê, veio uma conversa entre um amigo meu e eu. Falámos de todas aquelas ocasiões em que alguém não muito conhecido, chato, ou simplesmente quando não estamos com paciência, nos diz qualquer coisa que, por um motivo ou por outro, nos escapa. O que fazer nestas alturas? Perguntar novamente? E se nem à segunda percebemos? Além disso, se é alguém que mal conhecemos ou uma pessoa simplesmente chata quereremos mesmo saber o que foi dito, tantas e tantas vezes em conversas de circunstância?
Aqui vão alguns dos mais famosos bloqueadores de conversa (não confundir com os outros…), assim apelidados porque travam qualquer desenvolvimento da conversa:
 - Se foi-nos dito algo com um sorriso no fim provavelmente trata-se de uma piada, pel oque um “pois é, pois é…” é suficiente…
 - Se for seguido de uma gargalhada, então o locutor pode sentir-se ofendido pela nossa falta de entusiasmo. Aqui impõe um “que se há de fazer!….” ou um “é isso mesmo…”
 - Por fim, caso seja uma pergunta (a qual, obviamente não percebemos) limitamo-nos a abanar negativamente com a cabeça. Quantos de nós, apercebendo-nos do nosso erro, voltam atrás na resposta?

P.S.: Frase do dia: “(…) dá-se a interpenetração mais profunda necessária (…)” in Termodinâmica Macroscópica
P.S.S.: A frase foi a propósito da energia limite para que uma reacção química se dê… óbvio…

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Wednesday, February 16, 2005

Supera-te

Texto de Waldemar Setzer, professor aposentado da USP:
      Ha algum tempo recebi um convite de um colega para servir de arbitro >na revisao de uma prova. Tratava-se de avaliar uma questao de Fisica, que recebera nota zero. O aluno contestava tal conceito, alegando que merecia nota maxima pela resposta, a nao ser que houvesse uma “conspiracao do sistema” contra ele. Professor e aluno concordaram em submeter o problema a >um juiz imparcial e eu fui o escolhido. Chegando a sala de meu colega, li a questao da prova, que dizia:
    “Mostre como se pode determinar a altura de um edificio bem alto com >o auxilio de um barometro.”
    A resposta do estudante foi a seguinte:
     “- Leve o barometro ao alto do edificio e amarre uma corda nele; baixe o barometro ate a calcada e em seguida levante, medindo o comprimento da corda; este comprimento sera igual a altura do edificio.”  Sem duvida era uma resposta interessante e de alguma forma, correta, pois satisfazia ao enunciado. Por instantes vacilei quanto ao veredicto. Recompondo-me rapidamente, disse ao estudante que ele tinha forte razao para ter nota maxima, ja que havia respondido a questao completa e corretamente.  Entretanto, se ele tirasse nota maxima, estaria caracterizada uma aprovacao em um curso de fisica, mas a resposta nao confirmava isso. Sugeri entao que fizesse uma outra tentativa para responder a questao. Nao me surpreendi quando meu colega concordou, mas sim quando o estudante resolveu encarar aquilo que eu imaginei lhe seria um bom desafio. Segundo o acordo, ele teria seis minutos para responder a questao, isto apos ter sido prevenido de que sua resposta deveria mostrar, necessariamente, algum conhecimento de fisica. Passados cinco minutos ele nao havia escrito nada, apenas olhava pensativamente para o forro da sala. Perguntei-lhe entao se desejava desistir, pois eu tinha um compromisso logo em seguida, e nao tinha tempo a perder. Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que nao havia desistido.     Na realidade tinha muitas respostas, e estava justamente escolhendo a melhor. Desculpei-me pela interrupcao e solicitei que continuasse. No momento seguinte ele escreveu esta resposta:
    ” - Va ao alto do edifico, incline-se numa ponta do telhado e solte o barometro, medindo o tempo ( t ) de queda desde a largada ate o toque com o solo. Depois, empregando a formula h = (1/2)gt2, calcule a altura do edificio.”
    Perguntei entao ao meu colega se ele estava satisfeito com a nova resposta, e se concordava com a minha disposicao em conferir praticamente a nota maxima a prova. Concordou, embora sentisse nele uma expressao de descontentamento, talvez inconformismo.
    Ao sair da sala lembrei-me que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Embora ja sem tempo, nao resisti a curiosidade e perguntei-lhe quais eram essas respostas. ” - Ah!, sim,” - disse ele - “ha muitas maneiras de se achar a altura de um edificio com a ajuda de um barometro.” Perante a minha curiosidade e a ja perplexidade de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicacoes:
    ” - Por exemplo, num belo dia de sol pode-se medir a altura do barometro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edificio.Depois, usando-se uma simples regra de tres, determina-se a altura do edificio;   Um outro metodo basico de medida, alias bastante simples e directo, e subir as escadas do edificio fazendo marcas na parede, espacadas da altura do barometro. Contando o numero de marcas ter-se-a a altura do edificio em unidades barometricas;   Um metodo mais complexo seria amarrar o barometro na ponta de uma corda e balanca-lo como um pendulo, o que permite a determinacao da aceleracao da gravidade (g). Repetindo a operacao ao nivel da rua e no topo do edificio, tem-se dois g’s, e a altura do edificio pode, a principio, ser calculada com base nessa diferenca.  Finalmente”, - concluiu, - “se nao for cobrada uma solucao fisica para o problema, existem outras respostas. Por exemplo, pode-se ir ate edificio e bater a porta do sindico. Quando ele aparecer; diz-se: ‘Caro Sr. sindico, trago aqui um otimo barometro; se o Sr. me disser a altura deste edificio, eu lhe darei o barometro de presente’.” Nesta altura perguntei ao estudante se ele nao sabia qual era a resposta ‘esperada’ para o problema. Ele admitiu que sabia, mas estava tao farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocinio e cobrar respostas prontas com base em informacoes mecanicamente arroladas, que ele resolveu contestar aquilo que considerava, antes de mais nada, uma farsa. 

    “Nao basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornara assim uma maquina utilizavel e nao uma personalidade. E necessario que adquira um sentimento, um senso pratico daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que e belo, do que e moralmente correto” 
    Albert Einstein

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